Professora acolhendo crianças pequenas em uma relação de afeto e segurança na Educação Infantil
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Afetividade na Educação Infantil: o vínculo também ensina.

Uma criança não aprende apenas quando participa de uma proposta planejada. Ela também aprende quando é chamada pelo nome, quando o adulto se abaixa para conversar com ela, quando seu choro é acolhido e quando encontra alguém disposto a ajudá-la diante de uma dificuldade.

Na Educação Infantil, aprender depende das relações que a criança estabelece com as pessoas e com o ambiente. Quando ela se sente segura, respeitada e pertencente ao grupo, encontra melhores condições para brincar, explorar, comunicar o que deseja, conviver com outras crianças e enfrentar novos desafios.

Por isso, a afetividade não é algo separado do trabalho pedagógico. Ela está presente na chegada, na alimentação, na troca, nas brincadeiras, nos conflitos, nas transições e em todas as experiências vividas ao longo do dia.

Mas trabalhar com afetividade não significa apenas oferecer carinho. Também não significa permitir tudo ou evitar qualquer frustração. Significa construir uma relação de confiança na qual a criança encontra acolhimento, respeito, limites e a presença atenta do adulto.

O que é afetividade na Educação Infantil?

A afetividade pode ser percebida na maneira como o adulto se relaciona com cada bebê e criança: como olha, escuta, conversa, toca, orienta, espera, acolhe e coloca limites.

Ela aparece quando a professora:

  • reconhece a criança como uma pessoa única;
  • procura compreender seus gestos, choros, falas e expressões;
  • respeita seu tempo e suas necessidades;
  • demonstra disponibilidade para ajudá-la;
  • comunica o que acontecerá durante os cuidados;
  • acolhe as emoções sem permitir agressões;
  • oferece segurança sem impedir a autonomia.

Portanto, ser uma professora afetiva não é fazer todas as vontades da criança. Um adulto afetivo também diz “não”, interrompe comportamentos que podem machucar e estabelece combinados. A diferença está na maneira como faz isso: sem ameaçar, humilhar, assustar ou rotular.

A criança pode não conseguir aquilo que deseja, mas ainda assim precisa sentir que continua sendo respeitada e acolhida.

Por que a afetividade é importante para a aprendizagem?

A BNCC reconhece as interações e as brincadeiras como eixos estruturantes das práticas pedagógicas da Educação Infantil. Isso significa que as aprendizagens acontecem, principalmente, nas relações que as crianças estabelecem com outras crianças, com os adultos, com os espaços e com as diferentes materialidades.

Quando encontra adultos disponíveis e relações previsíveis, a criança tende a se sentir mais segura para:

  • afastar-se gradualmente do adulto e explorar o ambiente;
  • participar das brincadeiras;
  • experimentar novos materiais;
  • expressar necessidades, desejos e sentimentos;
  • pedir ajuda;
  • lidar com pequenas frustrações;
  • construir relações com outras crianças;
  • desenvolver autonomia.

No caso dos bebês, essa relação aparece de maneira muito clara. É a segurança construída com o adulto que permite, aos poucos, explorar o chão, alcançar um brinquedo, aproximar-se de outra criança ou aceitar novos momentos da rotina.

Com as crianças pequenas, a afetividade também favorece a comunicação, a construção da identidade e o aprendizado da convivência. Elas começam a perceber que seus sentimentos são reconhecidos, mas que as outras pessoas também possuem necessidades e limites.

Como trabalhar a afetividade na rotina?

A afetividade não precisa aparecer somente em uma atividade específica sobre sentimentos. Ela deve atravessar o cotidiano.

1. Acolha a criança na chegada

Bebê estende os braços para a professora enquanto a mãe sorri durante a chegada ao CEI.

A chegada pode ser um momento difícil, especialmente durante o período de adaptação. Receber a criança pelo nome, aproximar-se com tranquilidade e reconhecer o que ela está sentindo ajuda a construir segurança.

Em vez de dizer:

“Não precisa chorar. “A mamãe já volta.”

A professora pode dizer:

“Você está sentindo falta da mamãe. Eu estou aqui com você. Vamos esperar juntos até você se sentir melhor.”

O objetivo não é fazer o choro parar imediatamente, mas mostrar à criança que existe um adulto capaz de reconhecer sua emoção e permanecer ao seu lado.

2. Transforme os cuidados em momentos de relação.

Professora incentivando a participação e a autonomia de uma criança durante um momento de cuidado.

Troca, alimentação, banho, higiene e descanso não são interrupções do trabalho pedagógico. São momentos privilegiados para fortalecer vínculos e promover participação.

Durante a troca, por exemplo, o adulto pode conversar com o bebê, explicar o que fará antes de tocar em seu corpo e convidá-lo a colaborar:

“Agora vou tirar sua meia. Você pode levantar o pezinho?”

Na alimentação, pode observar preferências, respeitar os sinais de saciedade e incentivar a autonomia de acordo com as possibilidades da criança.

O Currículo da Cidade de São Paulo também destaca o valor das relações construídas nos momentos de cuidado, por meio do olhar, da conversa, de movimentos suaves e do respeito às manifestações dos bebês.

3. Observe antes de interpretar.

Conhecer a criança é essencial para construir uma relação afetiva. Isso exige observar suas formas de comunicação sem transformar rapidamente o que aconteceu em um julgamento.

Veja a diferença:

  • Fato: durante a transição para o parque, a criança chorou, deitou no chão e segurou um brinquedo.
  • Hipótese: talvez ela ainda não tenha compreendido que poderá voltar a brincar com aquele objeto.
  • Julgamento: ela é teimosa e sempre faz birra.

Quando a professora registra o fato e levanta hipóteses, consegue pensar em novas estratégias. Pode avisar a criança com antecedência, permitir que ela guarde o brinquedo ou usar uma música para sinalizar a mudança de espaço.

A observação transforma a afetividade em ação pedagógica intencional.

4. Ajude a criança a reconhecer o que sente.

Professora ajudando crianças a compreender suas emoções

Bebês e crianças pequenas ainda estão aprendendo a compreender e comunicar suas emoções. Muitas vezes, expressam frustração por meio do choro, do grito, da mordida, do empurrão ou da disputa por objetos.

O adulto pode ajudá-las nomeando o que observa:

“Você ficou bravo porque queria esse brinquedo.”

“Você não gostou quando ela pegou o carrinho.”

“Você está com saudade da sua família.”

Nomear uma emoção não significa justificar qualquer comportamento. Depois de acolher o sentimento, o adulto precisa marcar o limite:

“Você ficou bravo, mas eu não vou deixar você bater. Vamos encontrar outra forma de mostrar o que você quer.”

Assim, a criança aprende gradualmente que seus sentimentos são legítimos, mas que existem maneiras mais seguras de expressá-los.

5. Estabeleça limites com respeito.

Professora ajudando crianças pequenas a lidar com um conflito durante uma brincadeira.

Afetividade e limite não são opostos. Os limites ajudam a criança a compreender como conviver e oferecem segurança diante de situações que ela ainda não consegue controlar sozinha.

O limite precisa ser claro, breve e coerente. Em vez de longos sermões ou ameaças, o adulto pode dizer:

“Eu não vou deixar você machucar o colega.”

“Você pode ficar bravo, mas não pode jogar o brinquedo nele.”

“A cadeira é para sentar. Se quiser pular, vamos procurar um lugar seguro.”

Além das palavras, é necessário intervir fisicamente com cuidado quando houver risco, proteger as crianças envolvidas e oferecer alternativas possíveis.

6. Esteja presente sem fazer tudo pela criança.

A presença afetiva não deve impedir a criança de tentar, escolher ou resolver pequenos desafios.

Quando ela demonstra dificuldade para encaixar uma peça, por exemplo, a professora não precisa concluir imediatamente a tarefa. Pode se aproximar e dizer:

“Você está tentando colocar essa peça. Quer virar para ver se cabe de outro jeito?”

A criança percebe que não está sozinha, mas continua sendo autora da própria experiência.

A afetividade que favorece a aprendizagem não cria dependência. Ela oferece a segurança necessária para que a autonomia seja construída.

7. Prepare as transições da rotina.

As mudanças entre um momento e outro também são experiências relacionais. Veja como apoiar as transições na Educação Infantil com mais previsibilidade e segurança.

Interromper uma brincadeira, mudar de espaço, guardar materiais ou iniciar o momento de descanso pode gerar desconforto. Para a criança, nem sempre é fácil abandonar algo que ainda desperta seu interesse.

Algumas estratégias ajudam:

  • avisar com antecedência o que acontecerá;
  • usar músicas ou sinais conhecidos;
  • permitir que a criança participe da organização;
  • mostrar qual será o próximo momento;
  • evitar mudanças muito apressadas;
  • observar quem precisa de mais apoio.

Uma rotina previsível não precisa ser rígida. Ela deve ajudar a criança a compreender o cotidiano e, ao mesmo tempo, considerar seus ritmos e manifestações.

Frases que acolhem e orientam

Em vez de dizer…Experimente dizer…
“Pare de chorar.”“Eu percebi que você está triste. Estou aqui.”
“Você é muito bravo.”“Você ficou bravo com o que aconteceu.”
“Isso é manha.”“O que será que você está tentando me comunicar?”
“Peça desculpas agora.”“Olhe para ele. O que podemos fazer para ajudá-lo?”
“Você já é grande.”“Hoje está difícil. Vou ajudar você.”
“Se não guardar, ficará sem brincar.”“Está na hora de guardar. Eu começo e você continua.”

Essas pequenas mudanças evitam rótulos e ajudam a criança a compreender o que aconteceu, o que sentiu e como pode agir.

Afetividade também exige planejamento.

Uma prática afetiva não depende apenas da personalidade da professora. Ela precisa aparecer nas decisões pedagógicas.

Ao planejar, é importante perguntar:

  • As crianças são recebidas individualmente?
  • Os momentos de cuidado acontecem sem pressa, sempre que possível?
  • A rotina oferece previsibilidade?
  • As crianças podem expressar preferências?
  • Existem espaços para brincar individualmente e em pequenos grupos?
  • Os adultos reconhecem as emoções sem rotular as crianças?
  • Os limites são apresentados com clareza e respeito?
  • As observações da equipe ajudam a ajustar o planejamento?
  • As famílias são escutadas e informadas sobre o processo vivido pelas crianças?

Observar essas questões permite identificar o que já está funcionando e o que precisa ser reorganizado. Às vezes, uma criança considerada “difícil” está enfrentando transições rápidas, excesso de estímulos, fome, sono, necessidade de movimento ou dificuldade para compreender o que acontecerá em seguida.

A observação ajuda a equipe a sair do julgamento e buscar respostas mais respeitosas e eficazes.

Conclusão

A afetividade está nas pequenas atitudes repetidas todos os dias: chamar pelo nome, esperar uma resposta, antecipar um cuidado, reconhecer uma emoção, proteger diante de um conflito e permanecer por perto enquanto a criança tenta fazer algo sozinha.

Essas ações podem parecer simples, mas constroem a confiança que sustenta a aprendizagem. Quando a criança sente que é vista, ouvida e respeitada, encontra segurança para explorar o mundo, relacionar-se com outras pessoas e desenvolver sua autonomia.

Mais do que demonstrar carinho, trabalhar com afetividade é conhecer cada criança, organizar experiências acolhedoras, observar suas respostas e repensar a prática sempre que necessário. Afinal, na Educação Infantil, a maneira como o adulto se relaciona com a criança também faz parte daquilo que ela aprende.

Referências para a publicação: Base Nacional Comum Curricular – MEC e Currículo da Cidade – Educação Infantil/SME-SP.


Referências

FENG, Li; LI, Shuanglong. A meta-analysis of the association between teacher-child interaction quality and young children’s social skills. Frontiers in Psychology, v. 17, 2026. DOI: 10.3389/fpsyg.2026.1808031.

PAES, Tanya M.; DUNCAN, Robert; PURPURA, David J.; SCHMITT, Sara A. The relations between teacher-child relationships in preschool and children’s outcomes in kindergarten. Journal of Applied Developmental Psychology, v. 86, 101534, 2023. DOI: 10.1016/j.appdev.2023.101534.

Documentos orientadores

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: Base Nacional Comum Curricular.

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