Desenvolvimento infantil: o que observar em cada faixa etária sem comparar as crianças?
Prô, quando você olha para um grupo de bebês ou crianças pequenas, provavelmente percebe diferenças bem claras entre elas.
Uma já anda com segurança.
Outra ainda prefere se deslocar apoiando-se nos móveis.
Uma fala muitas palavras.
Outra se comunica principalmente por gestos, olhares e sons.
Uma participa rapidamente das propostas.
Outra observa bastante antes de se envolver.
E então surge uma dúvida muito comum:
“Será que essa criança está se desenvolvendo como deveria?”
Conhecer o desenvolvimento infantil é importante.
Mas existe uma diferença enorme entre conhecer referências de desenvolvimento e usar essas referências para comparar crianças.
Na Educação Infantil, observar o desenvolvimento não significa procurar quem está “adiantado” ou “atrasado”.
Significa conhecer melhor cada criança para compreender o que ela já consegue fazer, o que está tentando fazer e quais experiências podem favorecer novas aprendizagens.
Desenvolvimento não acontece como uma escada igual para todas as crianças
É comum imaginar o desenvolvimento como uma sequência muito organizada:
primeiro isso,
depois aquilo,
em seguida aquilo outro.
Na prática, não funciona exatamente assim.
Existem conquistas que costumam aparecer em determinadas fases da infância, mas o ritmo, a forma e o percurso podem variar.
Duas crianças da mesma idade podem apresentar diferenças importantes e ainda assim estar construindo aprendizagens significativas.
Isso acontece porque o desenvolvimento envolve diferentes dimensões ao mesmo tempo:
- movimento;
- linguagem;
- pensamento;
- interação social;
- emoções;
- autonomia;
- exploração do ambiente.
Uma criança pode demonstrar grande interesse pela linguagem e ainda estar construindo segurança motora.
Outra pode ser muito ativa corporalmente e utilizar poucas palavras naquele momento.
Por isso, olhar apenas para uma habilidade isolada pode nos fazer perder a criança inteira.
Então, para que servem as referências por faixa etária?

Os marcos do desenvolvimento servem para orientar o olhar.
Não para criar uma lista de exigências.
Quando a professora conhece algumas características comuns do desenvolvimento, consegue perceber melhor as ações que acontecem todos os dias.
Um bebê tentando alcançar um objeto não está apenas “pegando um brinquedo”.
Ele pode estar ajustando o corpo, calculando distância, coordenando olhar e movimento e persistindo diante de uma dificuldade.
Uma criança transportando potes de um lado para outro não está “só andando pela sala”.
Ela pode estar investigando peso, espaço, quantidade, equilíbrio e possibilidades de organização.
Conhecer o desenvolvimento nos ajuda justamente a enxergar essas aprendizagens.
Bebês até aproximadamente 1 ano: o corpo é uma grande ferramenta de investigação

Nos primeiros meses e ao longo do primeiro ano, grande parte da aprendizagem acontece pelo corpo e pelos sentidos.
O bebê observa rostos.
Acompanha movimentos.
Explora objetos com as mãos e com a boca.
Produz sons.
Repete ações.
Movimenta o corpo para alcançar aquilo que desperta seu interesse.
Começa a perceber que suas ações provocam efeitos.
Nessa fase, podemos observar, por exemplo:
Como o bebê explora os objetos?
Segura?
Bate?
Sacode?
Leva à boca?
Transfere de uma mão para outra?
Solta e procura novamente?
Como movimenta o corpo?
Tenta mudar de posição?
Alcança objetos?
Arrasta-se?
Engatinha?
Busca apoio para se levantar?
Como se comunica?
Olha para o adulto?
Sorri?
Vocaliza?
Produz diferentes sons?
Reage quando alguém fala com ele?
Como participa das interações?
Observa outras crianças?
Aproxima-se?
Toca?
Imita gestos ou sons?
O foco não precisa ser:
“Já engatinha?”
Pode ser:
“Que estratégias esse bebê utiliza para chegar até aquilo que deseja?”
Percebe a diferença?
A primeira pergunta verifica uma conquista.
A segunda investiga um processo.
De aproximadamente 1 a 2 anos: explorar, deslocar, repetir e comunicar

Quando a criança amplia suas possibilidades de deslocamento, o ambiente se transforma.
Agora ela pode chegar aos objetos.
- Transportá-los.
- Retirá-los de um lugar.
- Colocá-los em outro.
- Subir.
- Descer.
- Abrir.
- Fechar.
- Experimentar.
Nessa fase, a repetição aparece com muita força.
- A criança coloca objetos dentro de um pote.
- Retira.
- Coloca novamente.
- Carrega blocos.
- Derruba uma construção.
- Refaz.
E pode repetir a mesma ação muitas vezes.
Para o adulto, talvez pareça simples.
Para a criança, existe uma investigação acontecendo.
Podemos observar:
- Como ela se desloca pelo espaço?
- O que costuma transportar?
- Quais ações repete?
- Como resolve pequenos problemas?
- Como pede aquilo que deseja?
- Que palavras, sons ou gestos utiliza?
- Como reage quando outra criança se aproxima?
- Imita ações dos adultos ou de outras crianças?
Também começam a aparecer de maneira mais evidente brincadeiras de imitação e faz de conta.
Um pote pode virar uma panela.
Uma colher pode alimentar uma boneca.
Um pano pode servir para cobrir algo.
Mais uma vez, não precisamos perguntar apenas:
“Quantas palavras ela fala?”
Também podemos perguntar:
“Como essa criança encontra maneiras de comunicar o que deseja?”
De aproximadamente 2 a 3 anos: linguagem, autonomia e relações ficam ainda mais complexas

Por volta dessa fase, muitas crianças ampliam bastante suas possibilidades de comunicação, movimento e participação nas relações.
Elas querem fazer coisas sozinhas.
- Escolher.
- Carregar.
- Construir.
- Abrir.
- Servir.
- Guardar.
- Decidir onde brincar.
E também começam a enfrentar conflitos mais complexos com outras crianças.
É a fase em que podemos ouvir com frequência:
“É meu!”
“Eu faço!”
“Não!”
Isso não significa simplesmente desobediência.
Muitas vezes estamos diante de uma criança experimentando autonomia, desejo, pertencimento e possibilidades de participação.
Observe:
Como a criança brinca com outras crianças?
Aproxima-se?
Observa?
Imita?
Divide uma brincadeira?
Defende um objeto?
Busca ajuda do adulto?
Como utiliza a linguagem?
Nomeia objetos?
Combina palavras?
Conta pequenos acontecimentos?
Faz perguntas?
Utiliza gestos junto com a fala?
Como participa dos cuidados cotidianos?
Tenta comer sozinha?
Guarda objetos?
Ajuda na organização?
Participa da higiene?
Escolhe materiais?
Como brinca?
Cria situações de faz de conta?
Constrói?
Empilha?
Organiza objetos?
Transforma materiais em outros elementos imaginários?
Nessa idade, os conflitos também oferecem muitas pistas sobre o desenvolvimento.
Uma disputa por brinquedo pode revelar dificuldade de esperar, desejo de participar, necessidade de comunicação ou construção das primeiras formas de negociação.
De aproximadamente 3 a 4 anos: narrativas, imaginação e participação social se ampliam

À medida que a criança amplia a linguagem e sua experiência com o grupo, as brincadeiras podem se tornar mais elaboradas.
- Ela cria personagens.
- Combina papéis.
- Conta acontecimentos.
- Faz perguntas.
- Lembra experiências anteriores.
- Planeja pequenas ações.
- Participa de brincadeiras coletivas por períodos maiores.
Podemos observar:
- Como organiza suas brincadeiras?
- Que histórias cria?
- Como utiliza objetos no faz de conta?
- Como participa de conversas?
- Consegue contar algo que aconteceu?
- Como reage às ideias das outras crianças?
- Que soluções cria diante de pequenos problemas?
- Como utiliza desenho, pintura, construção, movimento e linguagem para expressar ideias?
A professora começa a perceber cada vez mais não apenas aquilo que a criança faz, mas também como ela pensa sobre aquilo que está fazendo.
Comparar crianças pode esconder aquilo que precisamos observar
Imagine duas crianças de dois anos e meio.
Uma fala bastante durante as brincadeiras.
A outra fala menos, mas observa os colegas atentamente, participa das brincadeiras, utiliza gestos e compreende o que acontece ao redor.
Se olharmos apenas para a quantidade de palavras, podemos concluir rapidamente que existe uma diferença importante.
Mas uma boa observação precisa ser mais ampla.
Como a segunda criança se comunica?
- Ela compreende solicitações?
- Utiliza gestos?
- Procura o adulto?
- Aponta?
- Imita?
- Participa das interações?
- Demonstra intenção comunicativa?
O desenvolvimento precisa ser observado em contexto.
Comparações simplificadas podem transformar diferenças individuais em problemas que talvez não existam.
E também podem fazer o contrário: esconder sinais importantes quando pensamos apenas que “cada criança tem seu tempo”.
“Cada criança tem seu tempo” não significa deixar de acompanhar
Essa frase é verdadeira até certo ponto.
As crianças realmente apresentam ritmos diferentes.
Mas acompanhar o desenvolvimento também significa perceber quando determinados comportamentos ou dificuldades persistem e merecem uma observação mais cuidadosa.
A professora não precisa diagnosticar.
Esse não é seu papel.
Mas pode registrar situações, conversar com a equipe pedagógica e compartilhar observações com a família quando perceber algo que merece acompanhamento.
A diferença está em evitar dois extremos:
comparar e cobrar todas as crianças da mesma maneira
ou
considerar que qualquer diferença pode ser ignorada porque cada criança tem seu tempo.
Entre esses dois extremos existe o acompanhamento pedagógico.
Troque o checklist por perguntas de observação
Em vez de utilizar apenas perguntas como:
“Já anda?”
“Já fala?”
“Já consegue empilhar?”
podemos ampliar:
Como se desloca pelo ambiente?
Que estratégias utiliza quando encontra uma dificuldade?
Como comunica seus desejos?
Que materiais despertam mais interesse?
Quais ações repete?
Como participa das interações?
O que consegue fazer sozinha?
Em quais situações procura ajuda?
O que está tentando aprender neste momento?
Essas perguntas transformam a observação.
A professora deixa de procurar somente conquistas prontas e passa a enxergar processos.
Observe a criança ao longo do tempo
Uma única cena não conta toda a história.
Talvez hoje uma criança não tenha participado de uma proposta porque estava cansada.
Talvez tenha permanecido próxima da professora porque acabou de chegar.
Talvez não tenha falado durante determinada situação, mas se comunique bastante em outros momentos.
Por isso, observar desenvolvimento exige continuidade. E continuidade pede registros que separem aquilo que realmente aconteceu das interpretações do adulto; veja como diferenciar fato, hipótese e julgamento na observação pedagógica.
Registros feitos ao longo das semanas ajudam a perceber mudanças que, no cotidiano, podem passar despercebidas.
Uma criança que inicialmente apenas observava uma brincadeira pode, algumas semanas depois, começar a aproximar-se.
Depois tocar os materiais.
Depois imitar outra criança.
Depois iniciar uma ação sozinha.
Quando temos registros, conseguimos enxergar esse percurso.
O desenvolvimento aparece nas pequenas ações

Na Educação Infantil, as grandes aprendizagens nem sempre aparecem em grandes acontecimentos.
- Elas estão escondidas nas cenas comuns.
- No bebê que tenta alcançar um objeto e muda de estratégia.
- Na criança que chama o colega para brincar.
- Naquela que consegue esperar alguns segundos.
- Na que começa a usar palavras em vez de puxar um brinquedo.
- Na que transporta materiais.
- Na que imita um gesto.
- Na que pergunta.
- Na que tenta novamente.
É por isso que conhecer o desenvolvimento infantil não serve para encaixar crianças em tabelas.
Serve para refinar o olhar da professora.
E onde entra a BNCC?
A BNCC propõe uma Educação Infantil centrada nas interações e brincadeiras e organiza as aprendizagens por meio dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento e dos campos de experiências.
Isso significa que o desenvolvimento não é pensado como uma lista de conteúdos isolados.
A criança aprende e se desenvolve ao conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se.
Por isso, quando observamos uma criança construindo, negociando, explorando materiais, movimentando-se ou criando uma brincadeira, estamos olhando para diferentes dimensões do desenvolvimento ao mesmo tempo.
Esse olhar integrado é muito mais potente do que perguntar apenas se ela “já alcançou determinada habilidade”.
Uma pergunta para levar para sua próxima observação
Na próxima vez que você estiver acompanhando seu grupo, escolha uma criança por alguns minutos.
Sem comparar com nenhuma outra.
Observe.
- O que ela escolhe fazer?
- Como começa a ação?
- O que acontece quando encontra uma dificuldade?
- Ela repete? Muda de estratégia? Procura ajuda?
- Como se comunica?
- Como utiliza o corpo?
- Como participa das relações?
Depois pergunte:
“O que essa cena me mostra sobre o que essa criança está aprendendo agora?”
Talvez essa pergunta diga muito mais sobre desenvolvimento infantil do que qualquer lista de habilidades.
Porque acompanhar o desenvolvimento não é descobrir quem chegou primeiro.
É compreender o percurso que cada criança está construindo — e pensar em como podemos ajudá-la a seguir adiante.
Referências
ZUBLER, Jennifer M. et al. Evidence-Informed Milestones for Developmental Surveillance Tools. Pediatrics, v. 149, n. 3, e2021052138, 2022. DOI: 10.1542/peds.2021-052138.
Documentos orientadores
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: Base Nacional Comum Curricular.

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