Professora agachada acompanha duas crianças pequenas em conflito por um brinquedo em sala de Educação Infantil.

Por que os bebês e as crianças pequenas mordem — e como agir sem rotular?

Prô, você está acompanhando as crianças e, de repente, acontece.

Uma criança se aproxima da outra, disputa um brinquedo ou simplesmente está brincando ao lado dela e, em poucos segundos, vem a mordida.

A criança mordida chora. A outra talvez também chore. Você precisa acolher quem se machucou, organizar o grupo, compreender o que aconteceu e, muitas vezes, ainda conversar com duas famílias preocupadas.

E então surge a pergunta:

“Por que essa criança morde tanto?”

A primeira coisa que precisamos compreender é que a mordida, principalmente entre bebês e crianças bem pequenas, não significa necessariamente agressividade, maldade ou falta de limites.

Morder é um comportamento relativamente comum nos primeiros anos de vida. À medida que a criança desenvolve linguagem, autocontrole e outras formas de resolver problemas, esse comportamento tende a diminuir.

Isso não significa que devemos simplesmente deixar acontecer.

Significa que, antes de corrigir a criança, precisamos compreender o que aquela ação está comunicando.

A criança não morde sempre pelo mesmo motivo

Imagine duas situações:

Na primeira, um bebê de aproximadamente um ano coloca brinquedos na boca, morde objetos, explora texturas e, durante uma interação, morde o braço de outra criança.

Na segunda, uma criança de dois anos está brincando com um carrinho. Outra se aproxima, tenta pegá-lo, e ela imediatamente morde o colega.

A ação foi a mesma.

Mas será que o motivo também foi?

Provavelmente não.

É justamente por isso que somente dizer “não pode morder” nem sempre resolve.

Para intervir de maneira pedagógica, precisamos descobrir o que está acontecendo antes, durante e depois da mordida.

Por que os bebês mordem?

Nos primeiros anos de vida, a boca é também uma importante forma de exploração.

O bebê leva objetos à boca, experimenta texturas, pressiona, suga e morde. Além disso, o período de nascimento dos dentes pode provocar desconforto, aumentando a busca por objetos que possam ser pressionados contra a gengiva.

Por isso, algumas mordidas podem acontecer durante uma exploração corporal e sensorial, sem que exista intenção de machucar alguém.

Outras razões também podem estar presentes.

A criança pode morder porque está:

  • frustrada;
  • cansada;
  • com fome;
  • superestimulada;
  • buscando espaço;
  • disputando um objeto;
  • tentando chamar a atenção;
  • experimentando causa e efeito;
  • sentindo necessidade de estimulação oral;
  • tentando comunicar algo que ainda não consegue expressar por palavras.

Fontes especializadas em desenvolvimento infantil destacam justamente essa variedade de motivos.

Isso muda completamente o olhar da professora.

Em vez de pensar:

“Ela é uma criança que morde.”

podemos começar a pensar:

“Em quais situações ela está mordendo?”

Essa pequena mudança faz uma enorme diferença.

Cuidado com o rótulo: “mordedor”

Quando uma criança morde repetidamente, é muito fácil que o comportamento comece a acompanhá-la.

“Ele é o mordedor.”

“Cuidado com ela, porque ela morde.”

“Ele morde todo mundo.”

Aos poucos, deixamos de falar sobre uma ação e começamos a falar sobre quem acreditamos que a criança é.

E são coisas muito diferentes.

A criança mordeu.

Isso não significa que ela é agressiva, é difícil ou é mordedora.

A ZERO TO THREE recomenda explicitamente evitar denominar a criança como “biter” — algo equivalente a chamá-la de “mordedora” — porque o comportamento não deve ser transformado em identidade.

Na Educação Infantil, isso é ainda mais importante.

Estamos acompanhando crianças em pleno processo de construção das formas de comunicar desejos, lidar com frustrações, esperar, negociar espaços e relacionar-se com outras pessoas.

Elas ainda estão aprendendo.

O que fazer no momento da mordida?

Professora acolhe duas crianças pequenas após uma situação de conflito em um CEI.

Quando a mordida acontece, a primeira necessidade é garantir a segurança.

Aproxime-se rapidamente e interrompa a situação com tranquilidade.

Não é necessário gritar, assustar ou fazer um longo discurso.

Uma frase simples pode ser suficiente:

“Eu não vou deixar você morder. Morder machuca.”

Em seguida, acolha a criança que foi mordida e faça os cuidados necessários.

A intervenção precisa ser firme, mas não humilhante.

Gritar, ameaçar, envergonhar ou exigir que a criança “peça desculpas” imediatamente dificilmente ensina o que fazer em uma situação semelhante no futuro. Orientações especializadas recomendam respostas breves e calmas, evitando punições severas e vergonha.

Depois que todos estiverem mais tranquilos, podemos ajudar a criança a construir outras formas de agir.

Por exemplo:

“Você queria o carrinho.”

“Você ficou bravo quando ele pegou.”

“Você pode me chamar.”

“Você pode dizer: meu.”

“Vamos pedir outro carrinho.”

A linguagem oferecida dependerá, naturalmente, da idade e das possibilidades daquela criança.

Com um bebê, muitas vezes a mediação acontecerá principalmente pela presença do adulto, pela organização do espaço e pela antecipação da situação.

O trabalho mais importante começa depois

Professora analisa registros e fotografias de situações cotidianas das crianças na Educação Infantil.

Resolver a mordida que já aconteceu é necessário.

Mas pedagogicamente existe uma pergunta ainda mais interessante:

Como podemos compreender por que ela aconteceu?

Aqui entra a observação.

Quando acontecer uma situação de mordida, experimente registrar situações de mordida de maneira bem objetiva.

Observe:

O que aconteceu antes?
Alguém pegou um brinquedo?
Outra criança se aproximou demais?
Era uma transição de espaço?
O grupo estava muito agitado?
A criança estava esperando o almoço?
Estava cansada?
Onde aconteceu?
Sempre no mesmo canto?
No parque?
Na troca de ambientes?
Durante brincadeiras de maior proximidade corporal?
Com quem aconteceu?
Com qualquer criança?
Sempre com a mesma?
Com crianças que costumam disputar determinados materiais?
O que a criança estava tentando fazer?
Pegar?
Manter um objeto?
Afastar alguém?
Aproximar-se?
Chamar atenção?

Esse tipo de investigação é recomendado justamente porque identificar os acontecimentos que antecedem a mordida ajuda o adulto a encontrar estratégias de prevenção mais adequadas.

Percebe como muda?

Você deixa de registrar apenas:

“João mordeu Pedro.”

e começa a enxergar a cena:

“João brincava com um caminhão. Pedro aproximou-se e segurou o mesmo objeto. João puxou o caminhão para perto do corpo. Pedro continuou segurando. João aproximou o rosto e mordeu o braço de Pedro.”

Agora temos informações para pensar.

Isso é observação pedagógica.

Depois de observar, replaneje

Professora organiza brinquedos e materiais em diferentes pontos da sala para favorecer as interações entre crianças pequenas.

Suponha que você perceba que as mordidas acontecem principalmente durante disputas por determinados brinquedos.

Talvez seja possível:

  • disponibilizar mais de um exemplar de materiais muito disputados;
  • organizar pequenos agrupamentos;
  • aproximar-se nos momentos em que você já sabe que os conflitos costumam ocorrer;
  • oferecer palavras e gestos que ajudem a criança a comunicar seus desejos;
  • criar diferentes possibilidades de exploração para reduzir longos períodos de espera.

Se as mordidas aparecem quando a criança está muito cansada, a reflexão será outra.

Se acontecem em ambientes muito cheios e barulhentos, outra.

Se parecem relacionadas à necessidade de morder e pressionar objetos, talvez seja importante observar quais materiais seguros podem responder a essa necessidade.

Por isso, não existe uma única estratégia para todas as mordidas.

A estratégia nasce da observação.

É aqui que a situação se conecta diretamente ao nosso movimento de Acompanhamento e Replanejamento: observar o que a criança faz, identificar padrões e reorganizar as condições oferecidas.

E a criança que foi mordida?

Também precisamos ter cuidado para que toda a nossa atenção não fique concentrada apenas em quem mordeu.

Quem sofreu a mordida precisa ser acolhido imediatamente.

Nomeie o que aconteceu de maneira simples:

“Doeu. Eu estou aqui com você.”

Faça os cuidados necessários e respeite o tempo da criança.

Não é preciso obrigá-la a abraçar, brincar ou se reconciliar imediatamente com quem a mordeu.

As duas crianças precisam da professora, mas por razões diferentes.

Uma precisa ser acolhida em sua dor.

A outra precisa aprender uma nova maneira de agir.

E como conversar com as famílias?

Esse costuma ser um dos momentos mais delicados.

A família da criança mordida quer saber se ela está segura.

A família da criança que mordeu pode sentir vergonha, preocupação ou até medo de que o filho esteja sendo visto como “problemático”.

Por isso, o modo como comunicamos faz diferença.

Evite:

“Seu filho está mordendo muito.”

Prefira contextualizar:

“Hoje aconteceu uma situação de mordida durante uma disputa por um brinquedo. Nós acolhemos as crianças e estamos observando em quais momentos isso ocorre para ajudá-lo a encontrar outras formas de comunicar o que deseja.”

A conversa sai da acusação e vai para o acompanhamento.

Família e instituição precisam estar do mesmo lado: tentando compreender e apoiar a criança.

Quando precisamos observar com mais atenção?

O fato de mordidas serem comuns entre crianças pequenas não significa que o comportamento possa ser ignorado. Pelo contrário!

Quando são muito frequentes, intensas, persistem apesar das intervenções ou aparecem acompanhadas de outras dificuldades importantes na comunicação, interação ou desenvolvimento, a equipe pode ampliar a observação e conversar com a família sobre a necessidade de orientação profissional.

A questão não é diagnosticar a criança dentro da escola.

É perceber quando ela pode precisar de apoio adicional.

A BNCC também nos ajuda a pensar sobre isso

Na Educação Infantil, as interações e as brincadeiras constituem os eixos estruturantes das práticas pedagógicas.

É justamente nessas interações que aparecem aproximações, conflitos, frustrações, afetos, disputas e diferentes maneiras de comunicar desejos.

A própria BNCC destaca que, ao observar as interações e brincadeiras, podemos identificar processos relacionados à expressão de afetos, mediação das frustrações, resolução de conflitos e regulação das emoções.

Portanto, uma situação de mordida não está fora do trabalho pedagógico.

Ela faz parte das relações que estamos ajudando as crianças a construir.

Antes de dizer “ela morde”, observe a cena

Na próxima vez que uma mordida acontecer — depois de acolher, proteger e cuidar das crianças — tente fazer algumas perguntas:

O que aconteceu imediatamente antes?

O que essa criança parecia querer naquele momento?

Esse comportamento aparece em situações parecidas?

Que habilidade ela ainda está construindo?

O que posso modificar no ambiente ou na minha mediação?

Talvez você descubra que a mordida não seja simplesmente um “comportamento inadequado”. Se quiser aprofundar esse olhar, veja também como transformar um comportamento desafiador em investigação pedagógica e conheça nossa área de materiais gratuitos para observação e planejamento.

Pode ser uma criança dizendo com o corpo aquilo que ainda não consegue dizer de outra maneira.

E nosso papel não é permitir que ela machuque os colegas.

É protegê-los e, ao mesmo tempo, ajudá-la a construir novas possibilidades de expressão e comunicação.

Porque educar também é isso:

Olhar além do comportamento para compreender a aprendizagem que ainda precisa acontecer.


Referências

SOLOMONS, H. C.; ELARDO, R. Biting in day care centers: incidence, prevention, and intervention. Journal of Pediatric Health Care, v. 5, n. 4, p. 191–196, 1991. DOI: 10.1016/0891-5245(91)90060-4.

WILLIAMS, Briana J.; NEWLAND, Rebecca. Taking a bite out of childhood biting in early care and education settings. The Brown University Child and Adolescent Behavior Letter, v. 41, p. 1–6, 2025. DOI: 10.1002/cbl.30878.

Documentos orientadores

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: Base Nacional Comum Curricular.

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