Transições na Educação Infantil: como ajudar a criança a lidar com mudanças na rotina
“Prô, está na hora de guardar os brinquedos!”
Você avisa, começa a organizar a sala e percebe que uma criança continua brincando. Outra protesta. Uma começa a chorar e aquela que estava tranquila corre para o outro lado da sala.
É fácil olhar para essa situação e pensar:
“Eles não querem guardar.”
Mas será que é apenas isso?
Para uma criança pequena, interromper uma brincadeira e começar outra experiência envolve muito mais do que obedecer a uma orientação.
Ela precisa compreender que aquilo que estava acontecendo terminou, descobrir o que acontecerá depois e reorganizar seu corpo, sua atenção e seus sentimentos para uma nova situação.
E isso acontece muitas vezes ao longo de um único dia.
A criança vive transições o tempo todo
Casa para o CEI.
Família para professora.
Sala para parque.
Brincadeira para almoço.
Movimento para descanso.
CEI para casa.
Além dessas pequenas transições diárias, a criança também viverá mudanças maiores, como trocar de turma, conhecer uma nova professora ou sair do CEI para iniciar sua trajetória na EMEI.
O que todas essas situações têm em comum?
Existe algo conhecido terminando e outra experiência começando.
Para nós, adultos, essa passagem costuma ser bastante previsível.
Para a criança pequena, nem sempre.
O que o tempo tem a ver com isso?

Muito.
Quando ajudamos uma criança a compreender relações como:
“primeiro isso, depois aquilo”;
“agora estamos aqui”;
“ontem fizemos isso”;
“amanhã acontecerá aquilo”,
estamos ajudando-a a organizar suas experiências no tempo.
E essa organização produz previsibilidade.
Quando a professora diz:
“Agora vamos lavar as mãos e depois vamos almoçar”,
a criança consegue começar a construir uma pequena sequência mental.
Ela sabe onde está e recebe uma pista sobre para onde está indo.
Pode parecer simples, mas essa compreensão contribui para sua segurança emocional.
Antecipar não significa controlar
Uma rotina previsível não precisa ser rígida.
O parque pode ser cancelado por causa da chuva.
A professora pode faltar.
Uma proposta pode durar mais do que o planejado.
Mudanças acontecem.
O importante é que o adulto ajude a criança a compreender:
“Hoje iríamos ao parque, mas está chovendo. Então vamos brincar na sala.”
Assim, a criança aprende algo ainda mais importante do que seguir uma rotina:
ela aprende que é possível lidar com aquilo que muda.
Antes de dizer “ela não quer obedecer”…

Observe.
A criança sabia que a brincadeira terminaria?
Ela sabe o que acontecerá depois?
Quanto tempo está esperando?
Estava profundamente envolvida no que fazia?
A mudança aconteceu de forma repentina?
Ela precisa de ajuda para encerrar aquela experiência?
Às vezes, mudar a pergunta muda completamente nossa intervenção pedagógica.
Em vez de:
“Por que ela não faz o que eu estou pedindo?”
podemos perguntar:
“O que ela precisa para compreender e atravessar essa mudança?”
E quando a grande mudança é sair do CEI?
A passagem do CEI para a EMEI também precisa ser pensada como uma transição.
A criança deixará um espaço conhecido, adultos com quem estabeleceu vínculos e uma rotina que já consegue antecipar.
Entrará em outro lugar.
Terá novos professores, novos colegas e outras referências.
Por isso, não basta dizer:
“Você está grande. Ano que vem vai para a EMEI!”
Podemos ajudá-la a construir gradualmente essa ideia.
Conversar sobre a nova escola.
Mostrar fotografias.
Realizar visitas quando possível.
Explicar o que poderá encontrar.
Ouvir suas perguntas.
Envolver as famílias.
A mudança de escola acontece em uma data.
A transição começa antes e continua depois.
O que queremos ensinar?
Não podemos organizar a vida da criança para que nada mude.
Isso seria impossível.
E também não seria desejável.
Queremos que ela descubra, progressivamente, que as experiências começam e terminam, que nem sempre tudo acontece como esperávamos e que situações novas podem ser conhecidas.
Para isso, precisa de adultos que antecipem, expliquem, acolham seus sentimentos e permaneçam disponíveis durante a mudança.
Talvez seja essa uma das grandes aprendizagens presentes nas pequenas transições de todos os dias:
A criança não precisa aprender que nada vai mudar. Ela precisa descobrir que pode atravessar as mudanças com segurança. Para compreender por que algumas crianças precisam de mais apoio nessas passagens, vale conhecer também o que observar no desenvolvimento infantil em cada faixa etária.
Referências
CRYER, Debby; WAGNER-MOORE, Laura; BURCHINAL, Margaret; YAZEJIAN, Noreen; HURWITZ, Sarah; WOLERY, Mark. Effects of transitions to new child care classes on infant/toddler distress and behavior. Early Childhood Research Quarterly, v. 20, n. 1, p. 37–56, 2005. DOI: 10.1016/j.ecresq.2005.01.005.
Documentos orientadores
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: Base Nacional Comum Curricular.

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